Cuidadora jovem conversando com idosa sentadas em sala aconchegante

Se você é cuidadora de idosos, provavelmente já fez esta conta e preferiu esquecer: um plantão de 24 horas por R$ 300 dá R$ 12,50 a hora. Doze reais e cinquenta para ficar acordada, atenta e responsável pela vida de outra pessoa, longe da sua casa e dos seus filhos.

E tem uma conta pior, que ninguém faz porque dá azar: o que acontece com a sua renda quando o seu único paciente é internado, vai para uma casa de repouso ou falece? Acaba. Naquela semana. Sem aviso, porque quase nunca existe contrato.

Existe outro jeito de viver dessa profissão, e ele está crescendo no Brasil com um nome engraçado: neta de aluguel. Este artigo explica o que é, quem paga, quanto se cobra e os cinco primeiros passos para você começar, sem largar o plantão de uma vez.

O que faz uma neta de aluguel

Uma neta de aluguel faz, por hora e mediante pagamento, o que uma neta ou uma filha faria se tivesse tempo, morasse perto e soubesse como:

  • Acompanha o idoso em consultas e exames, entra no consultório, anota o que o médico disse e manda um relatório para a família
  • Resolve burocracia: banco, cartão bloqueado, INSS, gov.br, segunda via de documentos, contas atrasadas
  • Ensina tecnologia: WhatsApp, videochamada, Pix, aplicativo do plano de saúde, como não cair em golpe
  • Faz companhia: mercado, farmácia, cabeleireiro, igreja, um café, uma conversa
  • Organiza o dia a dia: caixa de remédios da semana, agenda de consultas, lista de compras

O que ela não faz é tão importante quanto: banho, troca de fralda, transferência de peso, medicação injetável, pernoite, plantão. Não porque não saiba. Porque não é isso que está vendendo. A neta de aluguel vende presença de confiança em blocos curtos, de duas a quatro horas, e vai embora.

Isso é profissão de verdade?

Nos Estados Unidos, esse serviço se chama companion care e existe desde os anos 1980. Há empresas chamadas literalmente Rent-A-Daughter ("filha de aluguel"), fundadas em 1985, e em 2017 nasceu a startup Papa, que se vende como "netos sob demanda" e hoje vale mais de um bilhão de dólares, oferecida como benefício por planos de saúde americanos.

No Brasil, o serviço está nascendo agora, de baixo para cima, feito por cuidadoras que cansaram do plantão. Não existe uma grande empresa dominando o mercado. Quem chegar primeiro na sua cidade, com profissionalismo, ocupa o espaço.

E a demanda existe independentemente de você: segundo o IBGE, o número de brasileiros que moram sozinhos mais que dobrou desde 2012, e quatro em cada dez deles têm mais de 60 anos. Entre as mulheres que moram sozinhas, a maioria é idosa. São milhões de dona Marias com filhos que as amam, mas que passam duas horas por dia dentro de um trem e não conseguem levá-las ao médico na terça-feira.

Quem paga, e quanto

Aqui está o detalhe que muda tudo: quem contrata quase nunca é o idoso. É a filha. A filha de 45 anos, que mora longe ou trabalha o dia inteiro, e que sente culpa por não conseguir estar presente. Para ela, cem reais por duas horas de alguém de confiança levando a mãe ao médico é muito mais barato do que faltar no trabalho.

Por isso a neta de aluguel não cobra "um pouco mais que o plantão". Ela cobra pela solução de um problema. Os valores que aparecem no mercado hoje ficam entre R$ 40 e R$ 60 por hora, com mínimo de duas horas por atendimento, e o transporte com o idoso vai por aplicativo, pago pela família. Compare com os R$ 8 a R$ 15 por hora do plantão.

Isso quer dizer que você fica rica? Não. Quer dizer que, trabalhando cinco horas por dia, quatro dias por semana, você chega ao mesmo dinheiro que ganha em doze madrugadas de plantão. Dormindo na sua cama. E se quiser trabalhar mais, ganha mais.

Os 5 primeiros passos para começar

Você não precisa largar o plantão hoje. Precisa começar a construir a estrutura enquanto ainda tem renda. Estes cinco passos cabem em uma semana e custam praticamente zero.

1. Escreva o seu cardápio, e a sua lista de "não faço"

Pegue um caderno. Liste os serviços que você vai oferecer, agrupados nos quatro blocos acima (consultas e companhia, burocracia, tecnologia, organização). Depois, com a mesma clareza, escreva o que não está incluído. Leia em voz alta. Se doeu, é sinal de que estava certo escrever. Essa lista vai proteger seu preço, seu corpo e, como você vai ver no passo 3, você mesma juridicamente.

2. Abra o MEI, de graça, em vinte minutos

Não pague ninguém para fazer isso. Com uma conta gov.br nível prata ou ouro, você abre o MEI no Portal do Empreendedor, escolhe a ocupação "Cuidador(a) de idosos e enfermos independente" e sai com um CNPJ. A partir daí você emite nota fiscal pelo NFS-e Nacional. Emita sempre, mesmo quando a família não pedir. A nota é o que separa "a moça que ajuda" de "a profissional que eu contratei".

3. Tire a certidão de antecedentes criminais

Sai na hora, de graça, no site da Polícia Federal. Salve no celular. Você vai mandar para toda família nova antes de ela pedir. Nos Estados Unidos, "verificada e segurada" é a primeira linha de todo site de companion care. No Brasil quase ninguém faz isso. Quem fizer, sai na frente.

4. Arrume o seu WhatsApp

A primeira coisa que a filha vê, antes de ler uma palavra sua, é a sua foto de perfil. Troque a selfie por uma foto de rosto, fundo claro, cabelo arrumado, blusa lisa de cor sóbria, sorriso leve. Nome do perfil: seu nome e o serviço. Luciana | Neta de aluguel. Só isso. E escreva as palavras inteiras: a filha que mora longe vai julgar, sem querer, se você vai entender o que o médico falar pelo jeito que você escreve "você" e "também".

5. Avise quem você já conhece

Sua primeira cliente provavelmente é alguém que você já atende. Mande uma mensagem curta para famílias atuais e antigas, colegas cuidadoras, enfermeiras que você conhece: "agora trabalho como neta de aluguel, acompanho idosos em consultas, banco, celular, por hora, com nota fiscal; se souber de alguém, pode passar meu contato." Vinte mensagens dessas costumam render os dois ou três primeiros atendimentos.

O que este artigo não consegue resolver

Esses cinco passos fazem você começar. Mas eles não respondem as perguntas que vão aparecer na segunda semana:

  • Como calcular o seu preço por hora, e não copiar o de alguém?
  • Como cobrar diferente por acompanhamento hospitalar, quimioterapia ou urgência?
  • O que dizer, exatamente, quando a família responde "nossa, a diarista cobra 150 o dia inteiro"?
  • Como evitar que uma família vire vínculo empregatício, e qual é a frase que tira o medo de processo trabalhista logo no primeiro contato?
  • O que colocar na bio do Instagram, nos destaques, no site, no Google Meu Negócio, e como pedir avaliações sem constrangimento?
  • Onde deixar o cartão de visita, e como montar um programa de indicação com comissão para cuidadoras e fisioterapeutas?

Eu organizei tudo isso, passo a passo, no ebook "A cuidadora de idosos que virou Neta de Aluguel".

Ele começa com a história de Luciana, uma cuidadora de São Paulo, mãe solo, que perde a única fonte de renda numa sexta-feira e descobre a neta de aluguel num corredor de hospital. Você vai se reconhecer nela. Depois, o livro vira o caderno que ela abriu para montar o negócio: cardápio, precificação com método, MEI e nota fiscal, uniforme e fotos, Instagram, site, Google, cartão de visita, o roteiro completo do primeiro contato com a família, e as cinco camadas para conseguir clientes. No final, anexos prontos para usar: modelo de contrato de uma página, kit de mensagens do primeiro contato, tabela de precificação para preencher.

São 127 páginas, em PDF, para ler no celular. Sem promessa de enriquecimento: os valores do livro são exemplos para ensinar o método, e o livro ensina você a calcular o seu.

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Uma última coisa

A primeira decisão é a mais difícil, e não é abrir o MEI nem tirar foto. É dizer em voz alta que você não quer mais viver do jeito que vive. Depois disso, como toda neta de aluguel que começou descobriu, não tem mais como voltar atrás.

Abra o caderno.

Deny Vessoni é fundador da Zellar Home Care, agência de cuidadores em atividade desde 2012, autor do "Guia Definitivo: Como Abrir Seu Home Care" e criador do Meu Home Care.

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Sobre o Autor

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